carta-bomba

reprodução Prospect
Excelente discussão entre Steven Johnson e Paul Starr no caderno Mais! (assinantes), da Folha, neste domingo. Johnson foi editor-chefe e cofundador de uma das primeiras revistas on-line, a “Feed Magazine e Starr é professor de sociologia na Universidade Princeton. Os dois trocaram cartas entre 6 e 18 de abril deste ano sobre o futuro do jornalismo frente às novas tecnologias:

jornalismo x internet

Steven Johnson:

“(…) dentro de cinco ou dez anos, o setor dos jornais -e, portanto, seu produto editorial- terá aparência fundamentalmente diferente da atual. A dúvida é se vai ou não emergir um novo modelo que forneça os bens públicos antes garantidos pelos jornais por meio de seus monopólios locais que geravam alta margem de lucro (pelo menos nos EUA). Acho que existem boas razões para pensar que o sistema de notícias que está se desenvolvendo on-line será melhor que o modelo dos jornais com o qual convivemos nos últimos cem anos. Uma maneira de enxergar essa transformação é pensar na mídia como um ecossistema. Na maneira como ela circula a informação, a mídia de hoje é, de fato, muito mais próxima de um ecossistema do que era o velho modelo industrial e centralizado da mídia de massas. O novo mundo é mais diversificado e interligado. É um sistema no qual as informações fluem com mais liberdade. Essa complexidade o torna interessante, mas dificulta as previsões de como será sua aparência em cinco ou dez anos. “

Paul Starr:

“Concordo que um novo modelo de noticiário e controvérsia pública está emergindo on-line e que sob alguns aspectos, especialmente a gama de opiniões que abrange, o ambiente on-line apresenta vantagens em relação ao mundo tradicional do jornalismo impresso.Mas a realidade é que os recursos para fazer jornalismo nos EUA, especialmente nos níveis metropolitano e regional, estão desaparecendo mais rapidamente do que as novas mídias conseguem gerá-los.”

ecossistema

Steven Johnson:

“(…) Quando os ecologistas pesquisam os ecossistemas naturais, procuram as florestas mais antigas, onde a natureza teve mais tempo para evoluir.Para estudar as florestas tropicais, não analisam um campo desmatado dois anos antes.Por analogia, devemos examinar as partes do noticiário on-line que passaram por uma evolução mais longa.”

“(…) Pense no discurso de Barack Obama sobre a questão racial, possivelmente um dos acontecimentos-chave da campanha. Oito milhões de pessoas o acompanharam no YouTube.Teriam as redes de TV transmitido esse discurso na íntegra em 1992? Com certeza, não. Ele teria sido reduzido a um minuto no noticiário noturno. A CNN talvez o tivesse transmitido ao vivo, para 500 mil pessoas. A Fox News e a MSNBC nem sequer existiam.Para mim, não há dúvida de que o ecossistema do noticiário político em 2008 foi muito, muito superior ao de 1992.”

Paul Starr:

“Você emprega a metáfora de um ecossistema, e é um conceito reconfortante: à medida que morrem as formas de vida velhas, nascem outras novas.Mas você está tomando algumas árvores por uma floresta.Além disso, a própria metáfora orgânica induz ao engano. As mídias não se desenvolvem naturalmente. Elas se desenvolvem historicamente, e as forças que regem seu desenvolvimento são sobretudo políticas e econômicas.”

cadeia de informação

Steven Johnson:

“É verdade que sou otimista quanto às possibilidades de longo prazo do jornalismo, mas a última coisa que quero é incentivar a “inação”.Você quer ação para preservar um modelo de jornalismo de jornais que nos serviu bem por um século. Eu acho que podemos construir algo melhor.Você fala das forças de longo prazo que se alinharam contra os jornais. Elas são reais.Mas você passa por cima de muitas das forças compensatórias -políticas, econômicas e tecnológicas- que beneficiam o jornalismo e também a cultura cívica que o cerca.Hoje vemos novas e vastas eficiências na distribuição, graças à passagem da mídia impressa à digital. Existem oportunidades inusitadas de participação na criação, curadoria e discussão das notícias.O acesso às informações governamentais também se tornou mais fácil.”

Paul Starr:

“Que tal olharmos mais de perto o seu negócio, o Outside.in, e ver se funciona como substituto do jornalismo profissional.Vejo que, quando você lançou o Outside.in, em outubro de 2006, empregou o mesmo exemplo do projeto Atlantic Yards. Dois anos e meio já se passaram, e tenho certeza de que você já deve ter outro. Mas qualquer pessoa que navegue por seu site verá que ele não faz reportagem investigativa.Pelo que pude apreender, ele não faz nenhum trabalho de reportagem próprio. Ele agrega o que aparece em outros lugares. Não parece haver nenhum critério de relevância ou importância. E, se o que aparece em outros lugares é lixo, o site ajuda a difundir esse lixo, pois, por sua própria natureza, um site de notícias automatizado não possui o que tem todo bom editor: um detector de lixo.”

olho nas ruas

Steven Johnson:

“(…) claro que o Outside.in não faz um trabalho de reportagem original. Eu dei o exemplo do Atlantic Yards para mostrar o volume de informações já criadas sobre uma questão pública no Brooklyn. Eu não estava me atribuindo o crédito por esses conteúdos. (…) O que acho promissor nessa página, e em milhares de outras, é que informações estão sendo criadas e obtidas de uma gama diversificada de fontes, mas são espalhadas por centenas de sites diferentes.”

Paul Starr:

“Infelizmente, não consigo enxergar a contribuição positiva feita por sites que retiram materiais da internet, misturando releases para a imprensa e trabalhos genuínos de reportagem de maneira indiscriminada, sem aplicar nenhum critério de relevância ou confiabilidade.Na melhor das hipóteses, isso é irrelevante para o problema de manter o jornalismo independente, o engajamento cívico e a responsabilidade política. Na pior, pelo fato de rasparem alguns dos lucros, os sites de notícias automatizados agravam os problemas financeiros da imprensa.Até recentemente, eu não levava a sério a ideia de que os agregadores estariam violando direitos autorais.Contudo, agora, vejo que os tribunais deveriam deixar claro que a agregação não paga, sistemática e concentrada do trabalho de outras pessoas -sem o acréscimo de valor editorial- não constitui utilização justa.”

meu comentário: Vale a pena refletir sobre esse debate. Porque os agregadores de conteúdo estão na ordem do dia na produção, distribuição, recriação e circulação de informações na rede. Entender qual é o modelo mais adequado é a chave para o jornalismo hoje – porque o futuro é agora.

a íntegra do debate está na Folha Online (português) e na revista digital inglesa Prospect.
LM
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