Quem disse que a internet é igualitária?

Em entrevista ao caderno Mais!, da Folha de S.Paulo, deste domingo, 23, o filósofo Jesús Martín-Barbero (assinantes) diz que a utopia de democracia direta e igualdade total na internet é mentirosa e ameaça minar as práticas de representação e participação políticas reais. Abaixo, os principais trechos, comentados por esta jornalista.
reprodução Folha de S.Paulo
Igualdade
“A utopia da internet é que já não necessitamos ser representados, a democracia é de todos, somos todos iguais. Mentira. Nunca fomos nem somos nem seremos iguais. E portanto a democracia de todos é mentira. Seguimos necessitando de mediações de representação das diferentes dimensões da vida. Precisamos de partidos políticos ou de uma associação de pais em um colégio, por exemplo.”
Facebook
“Quando começamos a falar de comunidades de leitores, de espectadores de novela, estamos falando de algo que é certo. Uma comunidade formada por gente que gosta do mesmo em um mesmo momento. Se a energia elétrica acaba, toda essa gente cai. É uma comunidade invisível, mas é real, tão real que é sondável, podemos pesquisá-la e ver como é heterogênea. Comunidade não é homogeneidade. Nesse sentido é muito difícil proibir o uso da expressão ‘comunidade’ para o Facebook. Mas o que me ocorre ao usarmos o termo ‘comunidade’ para esses sites é que nunca a sociedade moderna foi tão distinta da comunidade originária.”
“O Facebook não nos iguala. Nos põe em contato, mas nada mais.”

Gramsci

“O sentido do que entendemos por sociedade mudou. Veja os vizinhos, que eram uma forma de sobrevivência da velha comunidade na sociedade moderna. Hoje, nos apartamentos, ninguém sabe nada do outro. Outra chave: o parentesco. A família extensa sumiu. Hoje, uma família é um casal. O que temos chamado de sociedade está mudando. Estamos numa situação em que o velho morreu e o novo não tem figura ainda, que é a ideia de crise de [Antonio] Gramsci. “
Televisão
“Não sei para onde vamos, mas em muito poucos anos a televisão não terá nada a ver com o que temos hoje. A televisão por programação horária é herdeira do rádio, que foi o primeiro meio que começou a nos organizar a vida cotidiana. Na Idade Média, o campanário era que dizia qual era a hora de levantar, de comer, de trabalhar, de dormir. A rádio foi isso. A rádio nos foi pautando a vida cotidiana. O noticiário, a radionovela, os espaços de publicidade… Essa relação que os meios tiveram com a vida cotidiana, organizada em função do tempo, a manhã, a tarde, a noite, o fim de semana, as férias, isso vai acabar. Teremos uma oferta de conteúdos. A internet vai reconfigurar a TV imitadora da rádio, a rádio imitadora da imprensa escrita… Creio que vamos para uma mudança muito profunda, porque o que entra em crise é o papel de organização da temporalidade. “
Liberdade
“Quando lançaram os primeiros aparelhos de gravação de vídeo, disseram-me que isso era uma libertação: as pessoas poderiam selecionar conteúdos. Mas esse debate já não é possível hoje. Passamos para um entorno comunicativo, as mudanças não são pontuais como antes. A questão não é se eu abro ou não abro o correio. Não quero ser catastrofista, mas o tanto que a internet nos permite ver é proporcional ao tanto que sou visto. Em quanto mais páginas entro, mais gente me vê. É outra relação.”
(Des)Informação
“Temos acesso a tantas coisas e tantas línguas que já não sabemos o que queremos. Hoje há tanta informação que é muito difícil saber o que é importante. Mas o problema para mim não é o que vão fazer os meios, mas o que fará o sistema educacional para formar pessoas com capacidade de serem interlocutoras desse entorno; não de um jornal, uma rádio, uma TV, mas desse entorno de informação em que tudo está mesclado. Há muitas coisas a repensar radicalmente.”
meus comentários:
Comunidade: vários autores colocam em questão essa idéia para as relações estabelecidas na internet. Em vez de estar em comunidade, estar em rede. E as redes sociais se caracterizam exatamente por possibilitar novas formas de associação como, por exemplo, Facebook e Twitter.
Igualdade: também não é novidade que a internet não democratiza literalmente e nos deixa iguais. Na realidade, amplifica a noção de espaço público. Quem disse que a internet democratiza e não precisa de mediãção?
Facebook: quem disse que o Facebook iguala as pessoas?
Gramsci: não concordo com essa idéia de que “o velho morreu e não sabemos ainda o que é o novo”. O velho não morreu, ele foi transposto à internet. Isso é percebido o tempo todo, repetem-se as metáforas analógicas…
Televisão: sobre a internet reconfigurar a TV imitadora da rádio, a rádio imitadora da imprensa escrita. De novo, a mudança será mesmo profunda à medida em os projetos de web deixarem de reproduzirem metáforas analógicas. Concordo que a internet vai reconfigurar formatos, comportamentos e tudo o mais. Esse debate está na ordem do dia há bastante tempo, sobretudo nas visões de Lev Manovich e Victoria Vesna.
Liberdade: Se pensarmos no conceito de capital simbólico, de Pierre Bourdieu (1930-2002), é verdade que “o tanto que a internet nos permite ver é proporcional ao tanto que sou visto. Em quanto mais páginas entro, mais gente me vê. É outra relação”. Mas também é possível escolher o que se quer ver, prova disso é a reconfiguração do conceito de notícia nas redes sociais (Geert Lovink).
(Des)Informação: Se é verdade que a grande questão que se coloca hoje é como “formar pessoas em um ambiente mesclado de tevê, texto, rádio e imagens, o raciocínio do ativista Geert Lovink está correto: o surgimento de redes sociais organizadas, fora da miscelânia que é a web hoje.
A pensar,
LM
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